sábado, 14 de julho de 2018

Nietzsche VIDA E OBRA - PARTE 3

Dois anos mais tarde Nietzsche publicou a coletânea de aforismos Humano, demasiado humano, o que consumou sua ruptura com Wagner. O elogio da arte francesa, a acuidade psicológica e o esvaziamento das pretensões românticas, além da aguda percepção, foram excessivos para Wagner. E, para culminar, a obra não continha nenhuma referência elogiosa à “música do futuro”.

Talvez ainda mais importante, essa obra também conseguiu afastar alguns dos mais genuínos admiradores filosóficos de Nietzsche. Ironicamente, a causa disso foi a razão pela qual ele é hoje admirado em todo o universo (mesmo por aqueles que abominam sua filosofia). Nessa obra, Nietzsche começou a desenvolver o estilo que lhe permitiu tornar-se um mestre na língua alemã. (Não se trata de tarefa pequena com um idioma como o alemão – que derrotou até mesmo alguns de seus mais conceituados escritores.) O estilo de Nietzsche fora sempre claro e combativo, suas ideias condensadas, mas ainda assim imediatamente compreensíveis.

Decidiu, no entanto, começar a escrever sob a forma de aforismos. Ao invés de usar argumentos longos e tortuosos, preferiu apresentar suas ideias numa série de intuições penetrantes, passando rapidamente de um tópico a outro. Nietzsche filosofava movimentando-se de várias maneiras. Suas melhores ideias ocorreram enquanto fazia longas caminhadas pelas regiões campestres da Suíça.

Frequentemente afirmava ter caminhado por mais de três horas, a despeito de sua saúde frágil (Embora isso pudesse muito bem ser antes uma projeção da vontade de potência que manifestação real dela.) Chegou-se mesmo a dizer que o estilo aforismático de Nietzsche era consequência de seu hábito de fazer pausas para anotar seus pensamentos enquanto caminhava. Seja qual for a causa, esse hábito aforismático de Nietzsche resultaria em estilo sem paralelo por toda a Europa durante o século XIX.

Eis uma pretensão ponderável (embora Nietzsche certamente concordasse com ela). O século XIX foi um período de grandes estilistas. Mas, exceção feita ao enfant terrible Rimbaud, nenhum outro escritor pressentiu a revolução linguística que estava por vir. Revolução de teor mais que de estilo. Na prosa de Nietzsche pode-se ouvir a voz próxima do século XX: ou seja, a língua do futuro.

Mas tudo isso não aconteceu de repente. Quando Nietzsche escreveu Humano, demasiado humano ele apenas começava a encontrar sua voz. Mesmo suas ideias ainda tinham, em muitos casos, de encontrar sua marca. Essa obra é rica em aperçus psicológicos. “O fantasista nega a realidade para si mesmo, o mentiroso só o faz para outros.” “A mãe do excesso não é a alegria, mas a falta dela.” “Todos os poetas e escritores enamorados do superlativo desejam fazer mais do que podem.” “Um dito espirituoso é um epigrama sobre a morte de um sentimento.” Mas, no final, tudo se torna excessivo.

Seus admiradores achavam que o que ele fazia não era filosofia e estavam certos. Tratava-se de psicologia, e de tal qualidade que algumas décadas mais tarde Freud decidiu não continuar a ler Nietzsche – receando descobrir não houvesse mais nada a dizer sobre o assunto. Mas a mistura de aforismos e psicologia não constrói uma obra extensa e coerente. Por trás dos aperçus psicológicos havia uma linha de argumentação muito tênue conectando os aforismos, o que fez com que sua obra fosse classificada como assistemática.

A obra de Nietzsche jamais perderia esse rótulo – o que é injusto. Por seu estilo aforismático, ela pode parecer assistemática, mas suas ideias são tão coerentes e tão bem fundamentadas quanto as que se encontram confinadas dentro de qualquer dos grandes sistemas filosóficos. No entanto, é óbvio que ele era assistemático. A filosofia de Nietzsche antecipava o fim de todos os sistemas. Ou deveria tê-lo feito – mas há sempre alguém querendo tentar. (Precisamente nessa época Karl Marx trabalhava com afinco no Museu Britânico – a apenas algumas cadeiras de onde me sento agora.)

A despeito dessas falhas, Humano, demasiado humano marca o despontar de Nietzsche como o melhor psicólogo de seu tempo – enorme façanha, caso se considere sua inexperiência social. Nietzsche era em essência um pássaro solitário. No sentido em geral aceito, ele mal conhecia alguém. Não tinha amigos verdadeiros. Por toda a sua vida manteve poucos admiradores próximos, mas sua auto-obsessão o impedia de dedicar-se ao dar e receber que caracterizam a verdadeira amizade. Como adquiriu então conhecimento psicológico tão profundo? Muitos comentadores opinam que sua fonte nessa esfera foi apenas um homem – Richard Wagner, o que é bem possível, uma vez que nele havia rica concentração de enigmas psicológicos a serem decifrados. Embora esses mesmos comentadores tendam a menosprezar o fato de que Nietzsche também se conhecia muito bem (ainda que de forma intermitente e às vezes um pouco seletiva).

As instrospecções psicológicas de Nietzsche são de aplicação universal, apesar de suas origens ecléticas – um filósofo misantropo e um compositor megalomaníaco. No entanto, o acesso de Nietzsche à sua principal fonte psicológica estava chegando ao fim. Após a publicação de Humano, demasiado humano, a ruptura com Wagner tornara-se inevitável. O mundo para o qual Nietzsche se preparava com essa obra era o Admirável Mundo Novo do futuro – um mundo no qual Bem e Mal não existiam mais sob qualquer forma de transcendência, um mundo sem valores absolutos ou sanções divinas.

Partindo para o ataque, Nietzsche expusera as motivações subconscientes do cristianismo, a “moral de escravo” que tentava emascular a vontade de potência. Wagner, nesse meio tempo, estava engajado em seu último trabalho, Parsifal, que marcou o fim de seu envolvimento com Schopenhauer e seu retorno ao abrigo do cristianismo. Seus caminhos se bifurcaram para sempre.

Em 1879 Nietzsche foi obrigado a demitir-se de seu cargo em Basileia em virtude de enfermidades contínuas. Por anos sua saúde fora frágil e, nesse momento, era um homem muito doente. Concederam-lhe pequena pensão e aconselharam-no a fixar residência em local de clima mais ameno. Nos dez anos seguintes, perambulou pela Itália, pelo sul da França e pela Suíça, sempre procurando um clima que aliviasse seu mal-estar.

O que havia de errado com ele? Quase tudo, aparentemente. Sua visão definhara a tal ponto que estava meio cego (o médico o aconselhara a deixar de ler, o que para ele equivalia a deixar de respirar). Sofria de violentas dores de cabeça que o incapacitavam, confinando-o ao leito por dias, e em geral era um poço de indisposições físicas e reclamações.

A coleção de medicamentos, elixires, pílulas, tônicos, pós e poções que mantinha sobre a mesa colocam-no em posição única, mesmo entre os grandes filósofos hipocondríacos. E no entanto esse foi o homem que concebeu a ideia de super-homem. O elemento de compensação psicológica presente nessa ideia não deve afastá-la do lugar central que ocupa entre outras ideias suas mais aceitáveis.


O super-homem fez sua aparição em Assim falou Zaratustra, longo poema “ditirâmbico”, de gravidade e exacerbação quase insuportáveis, cuja extrema falta de humor não é amenizada pelas tentativas de “ironia” e “leveza” de chumbo do autor. Como Dostoievski e Hesse, não é legível senão para os adolescentes – embora a experiência de tal obra nessa idade com frequência possa “mudar sua vida”.

E nem sempre para pior. As ideias tolas são facilmente identificáveis e o restante é um antídoto que desafia muitas noções aceitas, exigindo de cada um reflexão profunda e solitária. A filosofia, como tal, é quase negligenciável. Mas as exortações à filosofia – pensar por si mesmo – são poderosas, tanto quanto as caracterizações de nossa condição. “Existe ainda algo como em cima e em baixo?

Não estaremos à deriva através do nada infinito? ... Não estará a noite com certeza sempre mais profunda se fechando em torno de nós? Não necessitaremos lanternas pela manhã? Estamos ainda surdos ao rumor dos coveiros cavando o túmulo de Deus? Não sentimos o mau cheiro da putrefação divina? ...

A coisa mais santa e poderosa do mundo sangrou até a morte sob as nossas facas ... Proeza maior jamais foi realizada e, graças a ela, qualquer um que venha depois de nós viverá uma história maior que qualquer outra vivida antes.” Quase um século depois, os existencialistas franceses começaram a expressar esses pensamentos – em termos menos bombásticos – e foram saudados como a vanguarda do pensamento moderno.

Em suas intermináveis viagens por spas e balneários de clima ameno, Nietzsche foi apresentado por seu admirador Paul Rée a uma mulher russa de vinte e um anos chamada Lou Salomé. Rée e Nietzsche (separadamente e juntos) costumavam levá-la para longos passeios e tentavam encher a cabeça de Lou com suas ideias sobre filosofia. (Zaratustra foi apresentado a Lou como “o filho que nunca terei” – o que foi muito auspicioso para o jovem Zaratustra, não apenas pela atenção que seu nome pudesse ter atraído no recreio da escola.) Lou, Nietzsche e Rée envolveram-se então num esquema triangular inconcebível para uma época em que ninguém tinha um pingo de savoir-faire quanto a sexo.

De início os três declararam que todos estudariam filosofia e viveriam juntos num ménage à trois platônico. Depois, Rée e Nietzsche (separadamente) declararam-se apaixonados por Lou e decidiram propor-lhe casamento. Infelizmente, Nietzsche cometeu o ridículo erro de pedir a Rée que transmitisse a proposta a Lou em seu nome. (Isso não invalida a reivindicação de Nietzsche de ter sido o maior psicólogo de seu tempo.)

A melhor demonstração sobre quem estava de fato no controle dessa situação é oferecida por uma fotografia dos três, tirada num estúdio em Lucerna. Os dois virgens emocionais (com trinta e oito e trinta e três anos) estão atrelados a uma carroça, na qual se senta a verdadeira virgem de vinte e um anos, brandindo um chicote.

Finalmente, os três acharam-se incapazes de sustentar a grande farsa por mais tempo e se separaram. Nietzsche ficou tão desvairado que escreveu: “Esta noite tomarei ópio suficiente para enlouquecer.” Mas por fim decidiu que Lou não merecia ser a mãe ou a irmã do jovem Zaratustra. (Lou chegou a ser uma das mulheres mais notáveis de sua época. Após incorporar o sobrenome Andreas-Salomé de seu marido de estimação (um professor alemão), exerceria profunda influência sobre duas outras figuras de destaque naquele momento: mantendo um caso com o grande poeta lírico alemão Rilke e desenvolvendo amizade íntima com o já idoso Freud.)

Nietzsche VIDA E OBRA - PARTE 2

Infelizmente, só temos o depoimento de Nietzsche a respeito desse episódio improvável. Se a visita foi ou não tão acidental ou se ele terminou acariciando apenas as teclas do piano ou não, é impossível dizer. A essa altura ele era, quase sem sombra de dúvida, virgem. Era um jovem extremamente impetuoso, tanto quanto inexperiente e gauche no que dizia respeito a assuntos mundanos. (Embora isso não o tenha impedido de fazer pronunciamentos a esse respeito.

Apesar de sua condição sexual, informou compenetradamente a um amigo que necessitava de três mulheres para satisfazê-lo.) A despeito de tudo isso, tendo a crer na versão de Nietzsche sobre o incidente em Colônia. Em reflexão posterior, porém, Nietzsche deve ter decidido que fora atraído por algo mais que o piano. Voltou ao bordel e quase com certeza visitou alguns estabelecimentos semelhantes quando retornou a Leipzig. Não muito tempo depois, descobriu que estava infectado. O médico que o tratou não lhe teria dito que tinha sífilis (não o faziam naquela época porque era incurável, assim como hoje mentem com arrogância em relação ao câncer).

Ainda assim, em consequência desse incidente, Nietzsche parece ter-se em geral abstido de atividades sexuais com mulheres. Mesmo assim, continuou ao longo de sua vida a fazer observações autorreveladoras e embaraçosas sobre elas em sua filosofia. “Vai ver uma mulher? Não esqueça de levar o chicote.” O segundo incidente determinante em sua vida aconteceu quando ele entrou num sebo e se deparou com um exemplar de O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer.

“Tomei o livro estranho em minhas mãos e comecei a folhear as páginas. Não sei que demônio sussurrou ao meu ouvido: ‘Leve esse livro para casa.’ Assim, quebrando meu princípio de jamais comprar um livro precipitadamente, levei-o. Ao chegar em casa, atirei-me no canto do sofá com meu novo tesouro e comecei a deixar que aquele gênio dinâmico e melancólico trabalhasse minha mente ... Descobri-me olhando para um espelho que refletia o mundo, a vida e minha própria natureza com aterradora grandeza ... aqui eu vi doença e saúde, exílio e refúgio, Inferno e Paraíso.”

Em consequência desses assombrosos sentimentos proféticos, Nietzsche tornou-se um schopenhaueriano. Nessa ocasião, quando não tinha nada em que acreditar, necessitava do pessimismo e do distanciamento de Schopenhauer, que sustentava ser o mundo mera representação, amparado por uma vontade maléfica que a tudo perpassa. Essa vontade é cega e não atenta para as preocupações da humanidade comum, infligindo a seus membros uma vida de sofrimento, enquanto lutam contra sua manifestação em torno deles (o mundo). A única conduta sensata que nos resta consiste em diminuir o poder da vontade dentro de nós mediante uma vida de renúncia e ascetismo.

O pessimismo de Schopenhauer não se adequava totalmente à natureza de Nietzsche, mas ele reconheceu de imediato sua honestidade e sua força. A partir de então, suas ideias positivas teriam de ser primeiro fortes o bastante para ir além desse pessimismo. Mas, acima de tudo, o conceito de Schopenhauer sobre o papel fundamental desempenhado pela vontade se mostraria decisivo e se transformaria finalmente na vontade de potência de Nietzsche.

Em 1867 Nietzsche foi convocado para um ano de serviço no exército prussiano. As autoridades foram obviamente iludidas pelo enorme e feroz bigode militar que Nietzsche passara a cultivar sob a decepcionante cicatriz provocada pelo duelo, e ele foi enviado para a cavalaria. Foi um erro. Nietzsche tinha grande determinação, mas um físico lamentavelmente frágil. Sofreu sério acidente enquanto cavalgava e continuou sobre o cavalo como se nada tivesse acontecido, na melhor tradição prussiana. Quando o soldado Nietzsche voltou à caserna, teve de ser hospitalizado por um mês. Foi promovido a cabo por bravura e mandado de volta para casa.

De volta à Universidade de Leipzig, foi então reconhecido por seu professor como o melhor aluno que tivera em quarenta anos. Contudo, Nietzsche começava a perder o encanto pela filologia e sua “indiferença em relação aos verdadeiros e prementes problemas da vida”. Não sabia o que fazer. Desesperado, pensou em estudar química ou ir para Paris por um ano para experimentar “o divino cancã e o o veneno amarelo, o absinto”. Até que um dia conseguiu ser apresentado ao compositor Richard Wagner, que se encontrava em visita secreta à cidade. (Wagner fora expulso por atividades revolucionárias vinte anos antes; e o banimento persistia, apesar da transformação de suas posições políticas extremistas da esquerda para a direita.)

Wagner nascera no mesmo ano do pai de Nietzsche e, segundo os registros da época, guardava com ele impressionante semelhança. Nietzsche tinha grande – mas amplamente inconsciente – necessidade da figura paterna. Jamais conhecera antes um artista famoso nem alguém cujas ideias fossem aparentemente tão semelhantes às suas. Durante seu breve encontro, Nietzsche descobriu o profundo amor de Wagner por Schopenhauer. Wagner, lisonjeado pelas atenções do jovem e brilhante filósofo, devolveu-lhe a cortesia com o máximo de seu notável charme. O efeito sobre Nietzsche foi imediato e profundo: Nietzsche foi sufocado pelo grande compositor, cujo caráter exuberante era pelo menos igual ao de suas exuberantes óperas.

Dois meses mais tarde ofereceram a Nietzsche o cargo de professor de filologia na Universidade de Basileia, na Suíça. Ele tinha então apenas vinte e quatro anos e ainda não obtivera o doutorado. Apesar de suas dúvidas em relação à filologia, era uma oferta que não podia recusar. Em abril de 1869 tomou posse do cargo em Basileia e imediatamente começou a dar aulas extras na área de filosofia. Desejava combinar filosofia e filologia, o estudo de estética e dos clássicos – moldando nada menos que um instrumento de análise dos erros da nossa civilização. Rapidamente firmou-se como o jovem astro em ascensão da universidade e estabeleceu relações com Jacob Burckhardt, o grande historiador da cultura que também fazia parte do quadro acadêmico da universidade.

Burckhardt, o primeiro a elaborar o conceito histórico de Renascimento, era o único espírito do mesmo calibre de Nietzsche no corpo docente, e talvez a única figura que Nietzsche continuaria a reverenciar até o fim de sua vida. É possível que Burckhardt tivesse, nessa etapa crucial, exercido forte influência sobre Nietzsche, mas sua reserva aristocrática impedia que isso acontecesse. E, além disso, o papel da figura paterna já fora ocupado – por uma influência longe de ser forte. Em Basileia, Nietzsche estava a apenas trinta quilômetros de Tribschen, onde Wagner estabelecera residência com Cosima, filha de Liszt (nessa época ainda casada com um amigo mútuo de Liszt e Wagner, o regente von Bülow).

Imediatamente Nietzsche tornou-se, nos fins de semana, visita regular na suntuosa villa de Wagner, às margens do lago Lucerna. Mas a vida do compositor era operística não apenas em termos musicais, emocionais e políticos. Ele era um homem que acreditava em viver ao máximo suas fantasias. Tribschen era ela própria como uma ópera, e não havia jamais qualquer dúvida a respeito de quem desempenhava o papel principal. Vestido “ao estilo flamengo” (mistura do Holandês Voador com Rubens em roupas extravagantes), Wagner caminhava a passos largos entre paredes em cetim cor-de-rosa com querubins rococó, em calças de cetim negro até os joelhos, boina escocesa e gravata de seda com nó escandaloso – declamando em meio a bustos de si próprio, imensas pinturas a óleo (com o mesmo tema) e salvas de prata comemorativas de encenações de suas óperas.

Pairava incenso no ar e apenas à música do maestro era permitido competir com ele. Enquanto isso, Cosima colaborava na encenação do companheiro, certificando-se de que ninguém escapava carregando os perfumados cordeiros de estimação, os enormes cães de caça engalanados ou as aves ornamentais que perambulavam pelo jardim. É difícil entender como Nietzsche se deixou levar por tudo isso. Na realidade, é difícil entender que alguém se deixe levar por isso. (As extravagâncias de Wagner o deixavam constantemente arruinado e ele confiava no apoio de uma série de benfeitores ricos, inclusive o rei Ludwig da Baviera, que fez enormes contribuições com dinheiro do erário público.)

Somente quando se ouve a música de Wagner se pode conceber a profunda persuasão e a sedução fatal de seu caráter. O próprio Wagner era evidentemente tão excessivo quanto suas fascinantes composições. O imaturo Nietzsche logo se deixou enfeitiçar por essa atmosfera vertiginosa, onde os leitmotivs de fantasia inconsciente flutuavam pelos salões em estilo rococó. Wagner pode ter sido uma figura paterna – mas Nietzsche logo descobriu que sentia um desejo edipiano por Cosima, sem ousar declarar (nem a si próprio) que se apaixonara por ela.

Em julho de 1870, eclodiu a guerra franco-prussiana. Era a chance de a Prússia vingar-se da derrota imposta por Napoleão, conquistar os franceses e firmar a Alemanha como a maior potência da Europa. Cheio de fervor patriótico, Nietzsche se apresentou como enfermeiro voluntário. Passando por Frankfurt a caminho da linha de frente, viu as tropas da cavalaria ressoando os cascos pelas ruas em pleno esplendor. Foi como se uma venda caísse de seus olhos. “Senti pela primeira vez que a mais forte e mais elevada vontade de viver não se encontra na luta pela vida, mas numa vontade de potência, numa vontade de guerra e dominação.” Nascera a vontade de potência e, embora ainda fosse passar por modificações consideráveis, até ser vista mais em termos psicológicos e sociais do que militares, jamais se livraria totalmente de sua inspiração militar inicial.

Nesse ínterim, Bismarck esmagou os franceses e Nietzsche começou a descobrir que a guerra não era feita apenas de glória. No campo de batalha em Wörth, viu-se no meio de restos humanos “salpicados por todos os lados, exalando um penetrante cheiro pútrido de cadáveres”. Mais tarde, foi colocado num vagão de gado para conduzir seis feridos numa viagem que durou mais de dois dias. Entrincheirado entre ossos quebrados, carne gangrenada e soldados moribundos, Nietzsche, de forma varonil, fez o melhor que pôde – mas na chegada a Karlsruhe ele próprio era um homem destruído.

Foi levado para o hospital com desinteria e difteria. Apesar dessa traumática experiência, em dois meses Nietzsche estava de volta a Basileia, lecionando. Continuou a se sobrecarregar com aulas de filosofia, assim como de filologia, e começou a escrever O nascimento da tragédia.



Essa brilhante e originalíssima análise da cultura grega coloca em contraste o claro elemento apolíneo de sobriedade clássica e as forças dionisíacas, mais sombrias e instintivas. Segundo Nietzsche, a grande arte da tragédia grega resultou da fusão desses dois elementos, sendo finalmente destruída pelo racionalismo superficial de Sócrates. Foi a primeira vez que se enfatizou o elemento sombrio da cultura grega, e sua caracterização por Nietzsche como fundamental provocou grande controvérsia. No século XIX o mundo clássico era sagrado.

Seus ideais de justiça, cultura e democracia favoreciam a imagem que a classe média emergente fazia de si mesma. Ninguém queria ouvir que havia sido um grande erro. Ainda mais controverso foi o uso frequente de Wagner e sua “música do futuro”, por parte de Nietzsche, para ilustrar seus argumentos filosóficos. De fato, escreveu a seu editor: “O verdadeiro objetivo [deste livro] é iluminar Richard Wagner, esse extraordinário enigma de nosso tempo, em sua relação com a tragédia grega.” Somente Wagner conseguia harmonizar os elementos apolíneo e dionisíaco à maneira da tragédia grega.

Essa ênfase no elemento dionisíaco pleno de potência se firmaria como parte essencial da última filosofia de Nietzsche. Ele já não podia tolerar a “negação budista da vontade”, pregada por Schopenhauer. Ao invés disso, opôs o elemento dionisíaco aos elementos cristãos, que considerava terem enfraquecido a civilização. Ele compreendeu que a maioria de nossos impulsos tem dois lados.

Mesmo os assim chamados melhores impulsos têm seu lado sombrio ou degenerado: “Todo ideal pressupõe amor e ódio, reverência e desprezo. O impulso essencial pode surgir tanto do lado positivo quanto do negativo.” Em sua opinião, o cristianismo começara pelo lado negativo, firmando-se no Império Romano como a religião dos oprimidos e dos escravos. Isso em geral se manifestou em sua atitude com relação à vida. Tentou constantemente superar nossos instintos positivos mais poderosos. Essa negação era tanto consciente (na união do ascetismo com a autonegação) quanto inconsciente (com relação à humildade, que ele via como uma expressão inconsciente de ressentimento, uma inversão da agressão por parte dos fracos).

Da mesma forma, Nietzsche atacou a compaixão, a repressão dos verdadeiros sentimentos e a sublimação do desejo implícitos no cristianismo – em prol de uma ética mais forte e mais próxima das origens instintivas de nossos sentimentos. Deus estava morto, a era cristã terminara. No que exibiu de pior, o século XX provou que estava certo. No que teve de melhor, mostrou que muitos dos melhores elementos “cristãos” não dependem da crença em Deus. Se continuamos ou não a viver mais coerentes com nossos sentimentos básicos, ainda é discutível.

Wagner era um artista supremo, mas não estava preparado para reflexões filosóficas dessa dimensão. Pouco a pouco Nietzsche começou a enxergar o que se escondia por trás da máscara intelectual do compositor. Wagner era um ego ambulante, de grande porte e força intuitiva – mas mesmo seu amor por Schopenhauer era passageiro, apenas mais água para o seu próprio moinho. Antes Nietzsche procurara ignorar determinados elementos mais sórdidos do caráter de Wagner, como seu antissemitismo, sua exagerada arrogância e sua relutância em reconhecer a capacidade ou as necessidades de qualquer pessoa que não fosse ele próprio.

Mas havia limites. Por essa época Wagner tinha-se mudado para Bayreuth, onde o rei Ludwig da Baviera construía para ele um teatro, que seria destinado exclusivamente à encenação de suas óperas (projeto que contribuiria para a falência das finanças da Baviera e para a deposição de Ludwig). Em 1876 Nietzsche chegou a Bayreuth para a récita de abertura do ciclo dos Anéis de Wagner, mas adoeceu, quase com certeza de causas psicossomáticas. A megalomania e a célere decadência da arte haviam se tornado demasiado para o discípulo favorito do maestro e Nietzsche teve de partir.

CONTINUAÇÃO...

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Nietzsche Introdução

INTRODUÇÃO

No início da era cristã, a filosofia adormeceu. Seus cochilos acabaram por produzir o sonho filosófico conhecido como escolástica, que tinha por base Aristóteles e os ensinamentos da Igreja.

A filosofia foi rudemente despertada desses devaneios medievais no século XVII pela chegada de Descartes, com a sua declaração Cogito, ergo sum (Penso, logo existo). Uma era de esclarecimento havia começado: o conhecimento baseava-se na razão. Mas Descartes despertou mais do que os sonolentos eruditos. Também acordou os britânicos, que logo responderam à sua asserção racional, insistindo em que nosso conhecimento não se baseia na razão, mas na experiência.

No seu entusiasmo, os empiristas britânicos logo destruíram todo traço de razão – reduzindo a filosofia a uma série de sensações cada vez menores. A filosofia corria o risco de adormecer mais uma vez. Foi então que, em meados do século XVIII, Kant despertou de seu sono dogmático e formulou um sistema filosófico ainda maior do que o que condenara a filosofia à inércia durante a Idade Média. Parecia que a filosofia estava prestes a de novo emular Rip van Winkle.

Hegel reagiu a essa situação soporífera construindo para si mesmo um enorme leito sistemático de quatro colunas. Schopenhauer decidiu tentar outro método e jogou um jato da fria filosofia oriental no leito kantiano. Isso provocou o despertar do jovem Nietzsche, que se lançou na rajada fria e passou a proclamar uma ruidosa filosofia, que manteria a humanidade acordada por muito tempo.



VIDA E OBRA - PARTE 1


Com Nietzsche a filosofia passou a ser novamente perigosa, dessa vez com uma diferença. Nos séculos anteriores a filosofia fora perigosa para os filósofos; com Nietzsche, torna-se perigosa para todos. Nietzsche terminou louco, o que começou a transparecer no tom de seus últimos escritos. Suas ideias perigosas, porém, começaram a surgir muito antes de ele enlouquecer e nada têm a ver com insanidade mental clínica. Elas eram o presságio de uma loucura coletiva que teria terríveis consequências na Europa durante a primeira metade do século XX e que agora mostra sintomas nefastos de recidiva nos Bálcãs e na Europa oriental.

As melhores ideias filosóficas de Nietzsche mal são dignas desse nome – esteja ele falando do super-homem, do eterno retorno (a ideia de que vivemos várias vidas através da eternidade) ou do único objetivo da civilização (produzir “grandes homens”, como Goethe, Napoleão e ele próprio). A utilização que ele faz da vontade de potência como uma explicação universal é ou simplista ou sem sentido – até mesmo o monismo de Freud é mais sutil e o conceito menos específico de Schopenhauer sobre a vontade universal é mais convincente. Como qualquer boa teoria ardilosa, a insinuante doutrina da vontade de potência contém o habitual elemento de paranoia. Mas o verdadeiro filosofar de Nietzsche é tão brilhante, persuasivo e incisivo quanto qualquer outro antes ou depois dele.

Quando se lê Nietzsche, tem-se a sensação embriagadora de que a filosofia de fato tem importância (uma das razões por que ele é tão perigoso). A utilização da vontade de potência como mero instrumento analítico possibilitou-lhe a descoberta de elementos constitutivos das motivações humanas de que poucos tinham suspeitado antes. Isso permitiu-lhe desmascarar valores oriundos dessas motivações e traçar seu desenvolvimento sobre um quadro histórico amplo, iluminando os próprios alicerces da nossa civilização e da nossa cultura.

Embora Nietzsche não seja totalmente isento de culpa pelos perigosos disparates proferidos em seu nome, deve-se frisar que a maior parte deles não passa de conceitos travestidos do que ele de fato escreveu. Ele nada sentia além de desprezo pelos protofascistas de seu tempo, os antissemitas o repugnavam e a ideia de uma nação de alemães de raça pura como raça superior teria decerto exercitado ao máximo seu senso de humor. Tivesse ele vivido (e mantido sua sanidade mental) até a década de trinta, quando estaria apenas na casa dos oitenta, Nietzsche não teria certamente permanecido em silêncio a respeito dos grotescos acontecimentos que se desenrolavam em seu país –como fizeram alguns filósofos alemães da época, que se proclamavam seus sucessores.

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844 na Saxônia, então província do cada vez mais poderoso império da Prússia. Nietzsche descendia de longa linhagem de comerciantes, inclusive chapeleiros e açougueiros, mas seu pai e seu avô eram ambos pastores luteranos. Seu pai era um prussiano patriota que tinha o rei, Frederico Guilherme IV, em alta estima. Quando o primeiro filho de Ludwig Nietzsche nasceu, no dia do aniversário do rei, era óbvio que viria a se chamar Friedrich. Por coincidência extrema e sem sentido, os três morreriam loucos.

O primeiro a partir foi Ludwig, falecido em 1849. O diagnóstico foi “amolecimento do cérebro” – e a autópsia aparentemente revelava que um quarto de seu cérebro fora afetado pelo “amolecimento”. Esse diagnóstico saiu de moda entre os profissionais médicos, porém renomados biógrafos de Nietzsche estão convencidos de que a insanidade de Ludwig Nietzsche não foi herdada pelo filho.

Nietzsche foi educado em Naumburg numa casa cheia de “mulheres santas” – que incluíam a mãe, uma irmã mais nova, uma avó materna e duas tias solteiras ligeiramente perturbadas. Isso parece ter influenciado a atitude de Nietzsche em relação a mulheres mais velhas que se enquadrassem na mesma categoria de suas tias solteiras. Aos treze anos foi para um internato na vizinha Pforta – um estabelecimento de prestígio, equivalente à melhor escola pública inglesa da época, onde recebeu boa educação aliada às barbaridades costumeiras. Nietzsche, produto genuíno de uma criação beata e mimada, tornou-se conhecido como “pastorzinho” e teve excelente desempenho. Mas era tão brilhante que não conseguiu evitar pensar por si mesmo.

Por volta dos dezoito anos começou a colocar em dúvida sua fé. O pensador de visão clara não podia deixar de notar que começava a se sentir deslocado no mundo em que vivia. Como de hábito, essa reflexão parece ter ocorrido em total isolamento. O pensamento de Nietzsche, por toda a sua vida, seria influenciado por poucas pessoas vivas (e não muitos mortos).

Aos dezenove anos foi para a Universidade de Bonn para estudar teologia e filologia clássica, com o objetivo de se tornar pastor. Seu destino havia sido traçado muito antes pelas “santas mulheres”; mas ele já experimentava um desejo inconsciente de rebelião, a que se seguiu uma transformação de seu caráter. Ao chegar à universidade, o aluno solitário inesperadamente tornou-se um típico estudante gregário. Aderiu a uma congregação influente, passou a sair para beber com outros rapazes e, à maneira verdadeiramente teutônica, chegou a bater-se em duelo, na forma habitualmente artificial, interrompido tão logo recebeu a cicatriz da honra – um ligeiro corte no nariz, mais tarde infelizmente ocultado pela armação dos óculos.

Era apenas uma fase obrigatória. Nesse momento, Nietzsche decidira que “Deus está morto”. (Essa observação, hoje tão estreitamente associada a Nietzsche e à sua filosofia, também fora feita por Hegel cerca de vinte anos antes do nascimento de Nietzsche.) Em casa, nas férias, recusou-se a receber a comunhão e anunciou que não seguiria os passos do pai tornando-se pastor. No ano seguinte decidiu transferir-se para a Universidade de Leipzig, onde iria desistir da teologia e concentrar-se em filologia clássica. Nietzsche chegou a Leipzig em outubro de 1865, no mesmo mês em que completava seu vigésimo primeiro aniversário. Ocorreram então dois fatos que transformariam sua vida.

Numa viagem de turismo a Colônia, visitou um bordel, inadvertidamente segundo confessou. Na chegada, pedira a um carregador que o levasse a um restaurante, mas o carregador levou-o a um bordel. Como o próprio Nietzsche relatou mais tarde a um amigo: “De repente me encontrei cercado por meia dúzia de visões vestidas em lantejoulas e gaze, olhando-me fixamente e cheias de expectativa. Por um instante, fiquei sem fala. Depois me dirigi instintivamente para a única coisa que naquele lugar tinha alma: o piano. Toquei alguns acordes, que me livraram de minha paralisia, e fugi.”

CONTINUAÇÃO...

Tudo Sobre Nietzsche.

Introdução e vida e obra-parte 1.

Vida e obra-parte 2.

Vida e obra-parte 3.

Vida e obra-parte 4.

Principais conceitos filosóficos.



Lista de todos os filósofos.

Aristóteles

Kant

Nietzsche